terça-feira, 3 de novembro de 2009

O próprio caminho


Nunca almejei a perfeição, deixo-a para os que estiverem dispostos. Mas aprendi a sentir o mundo, pessoas e coisas. Aprendi a olhar as situações com um olhar desprendi-do, com mais cor mesmo onde o cinza costuma imperar. E então puder ver como eu não gostaria de ser. Percebi desde cedo que não me encaixava em clichês, em regras. Sempre quis ser diferente da multidão. Fazer a diferença na minha vida e no mundo. Com isso aprendi a repudiar a máquina do mundo, a máquina de fazer robôs;
a máquina de sentir igual; a máquina de não poder sonhar; a máquina da massificação.
Na verdade só quero fazer meu próprio caminho, sem a pretensão de ser exemplo. Continuar a sentir a brisa do vento, o sentimento das coisas, o bater mais forte do cora-ção. Deixar que as idéias venham e se dispersem, que minhas escolhas não sejam defini-tivas...
Quero continuar em passos firmes nesse chão, mas com a cabeça nas nuvens, no limite do meu céu infinito. Deixar-me levar pelo vento que bate em meu rosto tocando singelas notas musicais. Permitir-me envolver pelo canto dos pássaros e o doce sabor da liberdade. Ainda assim não jogarei fora os meus sonhos pelo mundo. Não. Isso nunca hei de fazer, porque não jogo o jogo que sufoca as ideologias e a vontade de acreditar na vida. O meu discurso é só meu e as palavras que digo são apenas a materialização dos sentimentos que em mim fervilham sempre a ponto de ebulição. Elas são as cores da minha alma, o brilho dos meus olhos, o suspiro mais leve dos desejos mais profundos...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Debaixo do pôr do sol


É naquele pôr-do-sol que todos os dias a garota se esconde. Sempre no mesmo horário, quando o sol começa a sair de cena cedendo lugar pra noite que traz todas as suas estrelas... E lá está ela, estática, embriagada pela sensação de paz que vai tomando conta de cada pedacinho de seu corpo, sua alma, sua mente. Minutos que parecem horas. Olhinhos pequenos que ao sorrir mostram a alma, tão pequeninos, mas tão cheios de tudo, perplexos diante daquele momento em que ela é somente ela, transparente ali onde o sol se esconde e a noite chega.
Do seu quintal ela reina absoluta, pois é onde vê o mundo, o seu mundo que outros não podem ver. Sente-se livre e olha fundo, bem fundo para o horizonte à sua frente tentando enxergar o que há por trás do sol, além do que se pode ver a olhos nus ou simplesmente “distraídos”. Por um minuto todas as perguntas cessam. Todos os receios e medos esvanecem e ela rompe com todas as barreiras e deixa-se tocar, sentir o sol se despedir cobrindo suavemente a sua pele. Se tiver sorte, poderá ouvir os sons mudos da natureza, do dia que se faz noite e, da menina que se faz mulher.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Como num clarão


Foi assim, sem mais, nem menos. Ela estava sentada na parada de ônibus esperando para voltar para a casa. Um clarão. Não era um raio, nem as luzes da avenida que se acenderam. Não. Nem era a chuva que há dias ameaçava cair. Olhando para o céu como se quisesse entender, ela foi surpreendida pelo que viu. Enxergou a si mesma e encontrou algumas respostas. Naquele exato momento ela compreendeu que por mais que se deseje, nem sempre é possível controlar a vida, seus caminhos, momentos, por mais que tudo pareça tão brutalmente distorcido. E pensou então que às vezes, mesmo que se lute contra, a vida muda o tom da prosa; o ritmo da dança; a direção dos nossos passos.
Foi então que ela se viu obrigada a parar. Parar pra pensar sobre tudo que estava acontecendo ali, parar pra buscar saídas, mesmo que elas parecessem não existir; parar pra recomeçar, e só então seguir. Era como se os acontecimentos caíssem todos em cima dela ao mesmo tempo, e tudo parecesse não fazer o menor sentido, e talvez não tivessem mesmo sentido algum. Precisava aliviar a alma, limpar as estantes da vida, já um tanto cheias de passado, dores, medos, inseguranças tolas... Uma verdadeira poeira que lhe tirava toda a nitidez do coração. E com isso, abandonar velhos hábitos, antigas manias, trocar a velha roupa que por muito tempo se moldurava ao seu corpo, já tomando as formas da sua alma.
Parar, repensar e mudar. Seria esse o ciclo infinito que a partir daquela noite incomum e inesperada, ela seguiria à risca, sem desanimar! Seria assim um momento único, em que se tem a chance de se refazer, e saber aproveitá-lo era a atitude mais sábia a se tomar. Tornar-se quem de fato sonhava ser, e poderia ser! Quem sabe assim voltasse a vibrar na mesma sintonia da música que embalava a vida, e mesmo que essa melodia voltasse a mudar, agora ela saberia como lidar com isso sem o desespero de outrora.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O que significa


Lá está ela, de forma explicada, esmiuçada. Lá, onde todos recorrem quando têm dú-vidas do que significa algo: no Aurélio. E é lá que ela aparece como “1. Procedimento ou convívio cordial, afetuoso, próprio de companheiro; coleguismo daquele que convive com outro; camaradagem”. Sim, “Com-pa-nhei-ris-mo”. Mas o que isso quer dizer???
Companheirismo é assumir responsabilidades, deixar cobranças de lado, trocar papéis. É dar sem esperar receber, estender a mão sem precisar de pedido. É ajudar no trabalho, dar uma força em casa, levar para farra. É ficar acordado até tarde mesmo quando a vontade é estar dormindo. É dar carona, pegar ônibus junto, andar a pé sem reclamar. É pagar um almoço, fazer um lanche, passar fome enquanto espera desocupar a louça. É sentar numa mesa de bar mesmo sem nada para beber, é dividir o copo.
Companheirismo também é dividir segredos, trocar confidências, dar conselhos. É brigar quando preciso, puxar a orelha, atentar pro que se faz. É oferecer o ombro, chorar no colo, enxugar lágrima. É brincar com pequenas bobagens. É pedir desculpas mesmo quando não é necessário, é dizer um “obrigado” sincero. É falar de tudo, falar de nada, ficar em silêncio. É rir junto, rir um do outro e rir mais um pouco. É fazer carinho e dar cafuné. É sentir saudades, chegar junto, telefonar, aparecer de surpresa. É comprar o doce que ele tanto gosta. É fazer um jantarzinho gostoso só pra dizer o quanto se impor-ta com ele. É estar sempre presente, mas dando espaço e entendendo ausência.
Companheirismo é, além de tudo, reciprocidade. É perceber sintonia, comunhão de almas, saber-se cúmplice. É compreender mesmo quando tudo parece incompreensível. É esquecer protocolos, poder ser sem frescuras, contar para tudo. É sentir-se em casa, em porto seguro. É se ver através dos olhos do outro. É previsibilidade, estabilidade e um pouco de instabilidade, igualmente. É perceber contradições, saber de erros e estar disposto ao perdão. É respeito, amizade, amor, quase casamento – na alegria e na triste-za, na saúde e na doença. E mais. Quem o carrega sabe muito bem o que significa a pa-lavra... Mas sabe ainda mais a importância que ela tem. Numa relação, numa amizade... Na vida!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Talvez nem eles saibam


E são nas atitudes mais sutis que ela percebe o que é de verdade e o que não é. São nos comentários mais ingênuos que ela enxerga o que vai ficar e o que não vai. Na verdade, ela precisa aprender a lidar com o fato de que nem todos são merecedores de amor puro e sincero. De palavras doces. De abraços inesperados e sorrisos arrebatadores. De mãos estendidas nos momentos de turbulência e dor. Dos momentos de silêncio que dizem tudo. E até alguns que parecem ser, não são. Ah, então quem são os verdadeiros amigos? Talvez nem eles mesmos saibam disso. Mas ela sabe. E mesmo sendo cor-de-rosa demais, tem uma percepção aguçada e os dois pés cravados no chão.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Infinito Particular


Parece labirinto, mas talvez seja culpa mesmo dos espelhos... Eles se conformam em mostrar imagens que efetivamente não existem, me escondem tudo aquilo que esvai entre as dobras e as sombras do que se é. Mas não desisto. Insisto. E em busca dessa realidade exaurida, sou eu que tento descortinar inquietações, desarranjos e outros estragos que sequer podem ser pressagiados pelas nossas certezas inventadas.
Nesses momentos, não me é raro ser tomada de assalto pela loucura. Nada de pequenas transgressões, de extravagâncias levianas, da doidice nossa de cada dia. Isso é fichinha perto de tudo que surge, pulsa, emerge. Falo dos verdadeiros desvios da razão, daquilo que se encontra somente ao penetrar o íntimo das coisas, das que não se compartilham e nem se fazem compreender.
E então vou a fundo, procurando o entendimento do mundo, da vida, de mim. Percorro várias paisagens, dou de cara com desconhecidos, sinto aromas... Desses mergulhos em insanidades, confesso que não sei se consigo genuinamente acessar quaisquer tipos de sentidos ocultos. Estonteados, meus estalos de sabedoria teimam em se manter circunscritos a devaneios, dos quais não faço questão de ponderar perdas ou ganhos. Não, não é possível fazer balanços. Definir vencedores ou derrotados. Deles, guardo apenas a vontade de continuar assim, ligeiramente tresloucada. Dessa forma, quem sabe um dia eu seja capaz de discernir os grandes segredos de tudo quanto existe entre o céu e a Terra. O tudo e o nada. A poesia e a dor. O encontro e a partida. Ou, pelo menos, do que existe para além das superfícies do meu universo particular.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Nessa Estrada


Engraçado. E olha que acho graça mesmo ao me dar conta que você construiu de forma ousada, admito, um quebra-mola bem alto no meio da pista e me fez derrapar e furar um pneu. Por isso, decidi sair de vez de sua estrada. Troquei o pneu, enxuguei uma lágrima desobediente e peguei o acostamento da direita. Não queria mais rodar em teu asfalto, vencer tuas curvas, temer tuas retas, parar em teus cruzamentos.
Tuas placas de sinalização já não me diziam mais nada. Teus limites de velocidade me eram completamente estranhos. Rumei em direção a uma estradinha de terra discreta. Sem atropelos, sem animais na pista, sem buracos. Lá sim eu podia acelerar sem ser multada. Então parti sem olhar para trás.